E bebês? E bebês.

“And babys? And babys”: esquisito esse título para uma foto. E é esquisita também a proposta que me proponho aqui de escrever um texto sobre uma foto sem mostrá-la. Claro que qualquer um pode facilmente vê-la. Mas eu não recomendo isso. Não recomendo abrir uma nova aba em seu computador, entrar em qualquer mecanismo de busca da internet, digitar “And babys? And babys”, clicar em imagens e ver o que aparece. É tudo muito rápido, e de repente, em um toque de enter, a tela do computador te mostra coisas que ficam gravadas na sua retina. Coisas que queremos desviar os olhos. Que queremos esquecer que vimos. Pessoas mais sensíveis podem inclusive ficar com a imagem persistindo, aparecendo enquanto dormem a noite, ou mesmo em momentos durante o dia. É horrível. Eu não gosto de ver pilhas de corpos.
Muito melhor usar as palavras. Inclusive posso usá-las para descrever a foto, de modo que você não precise olhá-la. As palavras tem vantagens, elas não tem sangue, não mostram corpos abertos, conteúdos de dentro dos corpos saindo para fora, homens, mulheres e crianças mortos atirados no chão. E bebês? E bebês. São 23 ou 26 letras, sempre as mesmas, que combinadas de formas variadas com espaços e pontuações entre elas, são capazes de formar palavras, constituir sentidos e transmitir mensagens. É possível constituir sentido para uma pilha de corpos?
Juntemos, por exemplo, cinco letras com um espaço no meio: My Lay. A princípio pode não dizer muita coisa. Acrescentamos a palavra massacre: “My Lay Massacre”. Já há um verbete de Wikipedia sobre isso (1). Ficamos sabendo que se trata de um episódio que aconteceu em 1968, durante a guerra no Vietnã. My Lay é um lugar no sul do Vietnã, em que, nessa ocasião, aconteceu o assassinato em massa de, segundo o verbete do Wikipedia, entre 347 e 504 vietnamitas civis desarmados. Assassinato cometido pelo exército dos EUA, em que foram mortos homens, mulheres e crianças. E bebês? E bebês.
Curiosamente, as imagens, apesar de terem esse poder de ficar gravadas, de nos perseguirem e assombrarem, por outro lado têm o poder de nos anestesiarem. Somos bombardeados por todos os lados por imagens de violência, inclusive de pilhas de corpos, imagens em jornais, em revistas, nas tevês, no cinema. O cinema, especialmente os filmes de terror, parecem ter um gosto particular por imagens de violência que envolvem corpos abertos, despedaçados, desfigurados, muitas vezes no limite do humano. As imagens ficcionais também têm o poder de ficar gravadas, e há o risco de, dentro de nós, o ficcional e o real se misturarem, de já não discernirmos mais entre as imagens terríveis que aconteceram na realidade e as que foram fabricadas por Hollywood. E com isso nos acostumamos com elas, com as imagens de violência, ficamos anestesiados para seguir nossa vida, para seguirmos em frente, e não nos incomodarmos com as coisas que acontecem na realidade. Com as pilhas de corpos reais. Pois, mais impressionante que a quantidade de imagens de pilhas de corpos que somos expostos é a capacidade da humanidade em produzir pilhas de corpos.
Não precisamos ir longe. Caso tivermos a disposição de ir atrás, não é difícil encontrar imagens de pilhas de corpos do massacre do Carandiru, ou das inúmeras chacinas que aconteceram e continuam acontecendo nas periferias de nossas grandes cidades, bem como nos conflitos por terra no campo. Mas, curiosamente, não se dá muita atenção a isso. Imagine se, a cada vez que acontece uma chacina, encontrarmos uma foto com uma pilha de corpos na capa do jornal, ou no noticiário da TV? Não, aparentemente isso é bem desagradável, de muito mau gosto.
Por que parece que há vidas que valem mais do que outras, pessoas que são mais matáveis.
Recentemente uma foto circulou pelo mundo, gerando comoção e promovendo debates. Era de uma criança morta em uma praia. Uma criança refugiada da guerra civil na Síria que tentava com sua família atravessar de barco o Mediterrâneo para a Europa. O barco afundou. Aliás, muitos barcos cheios de refugiados têm afundado ali no Mediterrâneo. Não produzem pilhas de corpos, pois os corpos afundam na água, depois de um tempo voltam a boiar, mas imagino que se dispersem e vão parar em distintos lugares. O corpo do menino foi parar em uma praia. O que chama a atenção na foto é que dá pra reconhecer um menino bonitinho, frágil, bem vestido. Bem diferente de fotos em que aparecem trapos, corpos abertos, sangue, pessoas que mal são reconhecíveis como pessoas. Não, é possível reconhecer um ser humano, aliás, uma criança, e isso sensibiliza. Não vou entrar aqui no fato de que curiosamente a foto que sensibiliza é a de uma criança branca com roupinha. Não. De qualquer jeito era mais um refugiado, e é importante debater e pensar sobre a questão dos refugiados. Questão essa que também tem produzido pilhas de corpos, assim como a guerra civil da Síria, inúmeras pilhas de corpos, aliás, não recomendo a ninguém ver fotos das coisas que estão acontecendo na Síria.
Mas voltando à foto “And babys? And babys”: na verdade descobri que é um pôster, que foi feito como um manifesto contra a guerra do Vietnã. É o que tá no verbete do wikipedia “And babys?” (2). Trata-se de uma foto (tirada, na guerra do Vietnã, do massacre de My Lay) que foi sobreposta por palavras que dizem: “Q. And babys? A. And babys” – uma citação de uma entrevista que foi feita pelo jornalista Mike Wallace com o soldado Paul Meadlo. Eu acabei entrando em contato com essa entrevista (3) que deu origem ao título do pôster. O diálogo que acontece nela me impressionou muito. Me parece que é como uma história que está por trás da foto, que diz sobre o contexto dela, como se fosse uma moldura, mas feita de palavras. Com as palavras buscamos dar contorno e sentido para massacres como os de My Lay. Acho que é sempre bom recorrermos às palavras diante de pilhas de corpos. Por conta disso resolvi traduzir trechos desse diálogo (4).

Meadlo: […] Então a gente foi pra dentro da vila, e a gente começou a procurar na vila e a juntar pessoas e a correr pro centro da vila.
Wallace: Quantas pessoas vocês cercaram?
M: Bom, tinha por volta de 40-45 pessoas que a gente juntou no centro da vila. E a gente colocou elas lá, e era como uma pequena ilha, bem no meio da vila, eu diria. E…
W: Que tipo de pessoas – homens, mulheres, crianças?
M: Homens, mulheres, crianças.
W: Bebês?
M: Bebês.

Eu não conheço esse Wallace, nem sei se é jornalista ou o que ele faz, nem se ainda está vivo, mas achei admirável o que ele conseguiu fazer nessa entrevista. Me lembrou, inclusive, um verso de Drummond: “A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais” (5).

M: […] E então ele me disse pra começar a atirar. Então eu comecei a atirar, eu despejei uns quatro carregadores no grupo (6).
W: Você atirou quatro carregadores de sua…
M: M-16.
W: E isso é por volta de – quantos carregadores – quer dizer quantos…
M: Eu carregava 17 balas em cada carregador.
W: Então você deu algo perto de 67 tiros…
M: Correto.
W: E você matou quantos? Nesse momento?
M: Então, eu atirei neles na automática, então você não consegue – você apenas pulveriza a área neles e então você não consegue saber quantos você matou porque eles tavam indo rápido (7). Então eu devo ter matado dez ou quinze deles.
W: Homens, mulheres e crianças?
M: Homens, mulheres e crianças.
W: E bebês?
M: E bebês.

Na foto, entre os corpos mortos, é claramente distinguível corpos de bebês. Um deles parece estar em cima de um corpo de uma mulher, e me veio a imagem de que, enquanto Meadlo e os outros soldados americanos atiravam nos gooks, a mãe estava segurando seu bebê no colo, de modo que, ao caírem mortos, os dois continuassem juntos. Gooks é uma palavra que Meadlo utiliza na entrevista para se referir aos vietnamitas. Trata-se de um termo pejorativo entre os norte americanos para designar orientais. Já tinha sido usado na Guerra da Coreia. Parece ser importante criarmos termos pejorativos para designarmos grupos de pessoas que consideramos inferiores. Pois é preciso desumanizá-las. Se não fica difícil de matar homens, mulheres e crianças. E bebês? E bebês.
Sim, é difícil imaginar um homem com uma arma que atira em uma mãe segurando um bebê.

W: O que esses civis – particularmente as mulheres e crianças, os idosos – o que eles fizeram? O que eles disseram pra você?
M: Eles não tavam dizendo muita coisa (8). Eles apenas tavam sendo empurrados e fazendo o que diziam pra eles fazer.
W: Eles não estavam suplicando ou dizendo “Não… não”, ou…
M: Correto, eles tavam suplicando e dizendo “Não… não”. E as mães tavam segurando seus filhos e, mas elas se mantinham bem nos tiros. Bom, a gente manteve os tiros (9). Elas tavam acenando com os braços e suplicando…
W: Essa foi sua lembrança mais vívida do que você viu?
M: Correto (10).

Meadlo parece responder as perguntas como um militar, mesmo quando se trata de uma pergunta bastante subjetiva e íntima como aquela sobre suas lembranças vívidas. A resposta é: Correto. No final da entrevista, ele conta que continua sonhando com essas mulheres e crianças, e que muitas vezes nem consegue dormir (11).
A tecnologia ajuda nessa ação de produzir pilhas de corpos. No caso de Meadlo, uma metralhadora M-16: basta uma pressão no gatilho e da arma sai uma rajada de tiros, como um “spray”, palavra que ele utiliza como verbo em inglês: “you just spray the área”, que eu traduzi, não sei se muito bem, por você apenas pulveriza a área. A área é pulverizada de tiros e todos os que estão na frente caem mortos. E assim se produziu uma pilha de corpos. Homens, mulheres e crianças. E bebês? E bebês.
Novas tecnologias são eficientes para se produzir pilhas de corpos. Com elas não há inconvenientes de ter que olhar para mães com bebês, de ter que ouvir choros, gritos e súplicas, de ter que ficar próximo de sangue, pedaços de corpos, cheiros que exalam dos corpos. Às vezes nem precisa ter que se preocupar com os corpos.
Na Segunda Guerra se usou muito os bombardeios com bombas incendiárias. Bastava alguns aviões carregados com essas bombas sobrevoarem uma grande cidade e soltarem elas em cima, de preferência em áreas bem populosas, onde se podia fazer o maior estrago possível. Assim as cidades ficavam em chamas, as pessoas se queimavam, se carbonizavam, tudo ficava em ruínas, os sobreviventes ficavam em desespero em busca de água. E as pessoas que estavam no avião – que fizeram todo o estrago – podiam simplesmente voltar a suas bases áreas sem precisar olhar para todas essas coisas desagradáveis. Hoje em dia, inventaram os drones, de modo que nem precisa de uma pessoa que vá lá pilotando o avião, dá pra fazer tudo à distância por controle remoto, como um videogame, e o avião vai lá sem ninguém pilotando, explodindo tudo e produzindo pilhas de corpos.
Mas a humanidade criou tecnologias avançadas não apenas em produzir pilhas de corpos, mas também em fazer pilhas de corpos desaparecerem. Os EUA, por exemplo, descobriram, há um tempo atrás, que basta uma bomba, ou duas bombas, duas bombas sobre o Japão, que em um espaço de tempo inacreditavelmente curto uma cidade, com tudo o que há nela, pode ficar completamente irreconhecível. E mais, que espaços, construções, pessoas, homens, mulheres, crianças (e bebês? E bebês), simplesmente desaparecem quase sem deixar rastros em meio a um cogumelo gigante. Quer dizer, uma parte desaparece, enquanto outra parte fica irreconhecível, restos de corpos completamente carbonizados, que nem parecem pessoas, ou mesmo corpos ainda vivos, se arrastando pelo que sobrou da cidade, corpos vivos, mas completamente queimados com a pele derretida pendurada nas pontas dos dedos.
E há também os nazistas, grandes mestres na tecnologia de produzir e fazer desaparecer pilhas de corpos. Claro que foi necessário uma ideologia racista, o fanatismo, a capacidade de conseguir canalizar o ódio para grupos de pessoas específicos. E assim foi possível uma tecnologia única em identificar e juntar judeus, e também outros grupos de pessoas vistas como inferiores, praticamente na Europa toda, identificá-los e juntá-los, e depois transportá-los para uma região específica onde se construíram fábricas de morte, uma verdadeira linha de produção em que pessoas e pessoas, milhões de pessoas, chegavam eram envenenadas com um gás, e depois seus corpos levados para fornos, de modo que saíssem como fumaça. E assim foi possível em um espaço de tempo muito curto transformar milhões de pessoas em pilhas de corpos e depois em fumaça.
Mas a tecnologia para fazer desaparecer corpos não precisa ser tão sofisticada. Nas ditaduras da América do Sul, por exemplo, bastou, na Argentina, ter aviões sobrevoando o mar e jogando corpos na água; no Chile, sumir com os corpos no deserto; e no Brasil, e no Brasil?, nem se sabe ainda direito o que aconteceu com os corpos de pessoas assassinadas. Corpos que desapareceram durante a ditadura, mas que continuam desaparecendo na democracia, e que continuamos sem saber para onde vão. Aliás, o Brasil é uma história de produção de pilhas de corpos, com séculos de genocídio da população indígena e de escravidão da população negra, séculos de pilhas de corpos que nem mais sabemos onde estão, todo um país que se ergueu em cima de pilhas de corpos.
Mas o assunto deste texto, quase tinha esquecido, é uma foto e um diálogo que dá moldura para essa foto. Uma coisa que eu achei impressionante nas respostas do soldado é a honestidade, quer dizer, parece que ele fala a verdade. O que choca é como ele pode falar a verdade dessas coisas que aconteceram, assim, de forma crua, sem aparentemente estar em choque, comovido ou de algum modo arrependido pelo que fez. Ele era um soldado que tinha uma metralhadora, que recebeu uma ordem de atirar, e que, ao apertar o gatilho a metralhadora, soltou uma rajada, de modo que nem é possível saber quantos tiros saíram, e tudo o que estava na frente foi alvejado. Homens, mulheres e crianças. E bebês? E bebês.

W: Começaram a empurrar eles pra dentro do barranco?
M: Pra dentro do barranco. Então a gente começou a empurrar eles e a gente começou a atirar neles, então todos a gente apenas empurrou eles todos, e começou a usar as automáticas neles.
W: De novo – homens, mulheres, crianças?
M: Homens, mulheres e crianças.
W: E bebês?
M: E bebês.

De novo. Três vezes. É inacreditável que esse diálogo, quer dizer, a mesma sequência de perguntas e respostas foi repetida três vezes. Eu não consigo imaginar como isso não tenha gerado uma cena embaraçosa… Como é possível que nem um nem outro têm pudor em repetir isso? As mesmas palavras, do mesmo jeito.
É como se essas coisas pudessem ser faladas, como se fosse algo aceitável. Ou é como se essas coisas precisassem ser faladas. E acho que talvez seja isso mesmo: elas precisam ser faladas.

Notas:
1. Link com o verbete no Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/My_Lai_Massacre
2. https://en.wikipedia.org/wiki/And_babies .
3. A entrevista se encontra em pdf através do seguinte link: https://archive.org/details/MeadloWallaceInterviewNov241969
4. Eu não tenho experiência com tradução e essa entrevista especificamente traz dificuldades, pois há vários jargões militares, e expressões da linguagem oral, que eu não sei a melhor forma de traduzir. Aceito, portanto, correções e sugestões.
5. Esse verso está no poema “Carta a Stalingrado”, que se encontra no livro “A rosa do povo”.
6. Como eu não entendo de termos militares, não sei muito a melhor forma de traduzi-los. Em inglês: “So I started shooting. I poured about four clips into the group”. “Clips” é a parte que encaixa na metralhadora (no caso, uma M-16) onde ficam as balas – em português a palavra que encontrei para traduzi-la é “carregador”.
7. “Well, I fired them on automatic, so you can’t – you just spray the area on them and so you can’t know how many you killed cause they were going fast”.
8. “They weren’t much saying to them”.
9. “And the mothers was hugging their children and, but they kept right on firing. Well, we kept right on firing.”
10. “W: Was that your most vivid memory of what you saw? M: Right”.
11. “I see the women and children in my sleep. Some days… some nights, I can’t even sleep. I just lay there thinking about it”.

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1 comentário

  1. E bebês. De fato, O texto produz um envoltório que nos protege da imersão no horror. E , ao mesmo tempo, nos põe em contato com o horror mediado. Expondo uma indignação serena, se é que podemos dizer isso. Obrigada, Olmo, por ter persistido em manter-se em contato com este assunto tão ‘pesado, né.’. Diva.

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